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Você sabe o que é ECA DIGITAL?

  • Foto do escritor: Jessica Santos Bispo
    Jessica Santos Bispo
  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

O que antes era uma ferramenta de lazer tornou-se o ecossistema onde crianças e adolescentes constroem suas identidades. Se por um lado as telas oferecem uma janela sem precedentes para o conhecimento e a conexão, por outro, elas abriram as portas de casa para riscos invisíveis. Entre algoritmos de manipulação e a sombra do aliciamento online, a fronteira entre o aprendizado digital e a vulnerabilidade extrema tornou-se perigosamente tênue, transformando a navegação em um campo de batalha ético e psicológico.


O Mundo digital é parte inseparável do cotidiano de crianças e adolescentes. Plataformas de streaming, redes sociais, jogos online e aplicativos educativos abriram um universo vasto de oportunidades para aprendizado, socialização e desenvolvimento de novas habilidades, moldando como essa geração se comunica e percebe o mundo.


No entanto, essa imersão precoce e profunda também trouxe consigo uma série de riscos e vulnerabilidades, sendo desde o cyberbullying e a exposição a conteúdos inadequados e violentos, até ameaças mais complexas como o aliciamento online (grooming), a manipulação psicológica para fins comerciais e o uso indevido de dados pessoais. Dessa forma, o tema virou preocupação aos pais e vem sendo cada vez mais discutido.


Discussão sobre o Ambiente Virtual Seguro Para Crianças e Adolescentes


Em agosto de 2025, um vídeo do influenciador Felca viralizou nas redes sociais ao denunciar a crescente adultização de crianças e adolescentes em plataformas digitais, expondo conteúdos em que meninas e meninos eram retratados com comportamentos, roupas e linguagens tipicamente adultos incentivando os algoritmos e a monetização.


O episódio trouxe à tona um problema antigo que ganhou novas formas no ambiente virtual: o uso da imagem de crianças e adolescentes como meio de gerar engajamento e lucro. Trazendo a discussão sobre a responsabilidade das plataformas, papel das famílias e necessidade de políticas públicas, cresceu o consenso de que o Estatuto da Criança e do Adolescente, criado em 1990, precisava oferecer respostas aos desafios do mundo digital.


Diante desse cenário de grandes benefícios e ameaças crescentes, tornou-se importante e indispensável que a legislação brasileira se adaptasse para garantir a proteção integral dos jovens no ambiente digital.


O que é o ECA Digital?


O ECA digital é o Estatuto da Criança e do Adolescente Digital, reconhecido através da Lei n.º 15.211/2025, que representa uma atualização do Estatuto da criança e do Adolescente no ambiente digital. O objetivo do ECA Digital é estender a proteção integral da criança e do adolescente, garantindo proteção da privacidade, saúde mental e física de crianças e adolescentes nos ambientes digitais. O ECA busca responsabilizar as plataformas para proteger crianças e adolescentes no ambiente virtual. 


Atualmente ele não aborda especificamente crimes digitais complexos como a manipulação de imagens por Inteligência Artificial, como, por exemplo, o deepnudes.


Objetivo do Eca digital 


O seu objetivo central é estabelecer regras claras para estender o cuidado e a segurança ao ambiente online. Isso significa assegurar a privacidade, a saúde mental e física dos jovens, e garantir que a prioridade absoluta à infância e à adolescência seja respeitada, inclusive, no design e na operação de serviços digitais. 


A nova lei busca, essencialmente, mitigar a vulnerabilidade intrínseca desse público no mundo virtual, onde a manipulação de dados e o contato com conteúdo nocivo podem ocorrer de forma rápida e silenciosa.


As Principais Mudanças Trazidas pelo ECA Digital


As mudanças mais impactantes que transformam a atuação das plataformas e os direitos dos jovens são:


  • Verificação de Idade Confiável: Exigência de mecanismos robustos para confirmar a idade dos usuários, impedindo que as plataformas se baseiem apenas na autodeclaração.


  • Vínculo e Supervisão Parental: Contas de crianças e adolescentes de até 16 anos deverão ser vinculadas a um responsável legal.


  • Ferramentas de Controle: A lei obriga as plataformas a fornecerem ferramentas de controle que permitam aos pais ou responsáveis de limitar o tempo de uso, de Restringir contatos e aprovar compras em aplicativos e jogos.


  • Ação Rápida na Remoção de Conteúdo: As plataformas são obrigadas a agir rapidamente na remoção de conteúdos que representem risco grave, incluindo: Exploração sexual, Assédio e cyberbullying, discurso de ódio, incentivo a desafios perigosos ou autolesão.


  • Validade Universal: A lei se aplica a qualquer serviço digital acessado por crianças e adolescentes no Brasil, mesmo que a empresa fornecedora esteja sediada em outro país (extraterritorialidade).


  • Fiscalização Coordenada: A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) foi designada como o órgão central de fiscalização. Ela atua em parceria com outras instituições importantes, como o Ministério Público, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) e a Anatel, para garantir o cumprimento e a aplicação efetiva da lei em todo o território nacional


O Desafio Crítico dos Crimes Digitais Complexos


Adolescentes em grupo interagindo com amigos com seus celulares


Apesar de ser um marco legislativo fundamental e trazer inovações essenciais, o ECA Digital, em sua configuração atual, enfrenta críticas importantes de especialistas. A tecnologia evolui em uma velocidade espantosa, e infelizmente, a lei ainda demonstra uma lacuna preocupante ao não abordar especificamente crimes virtuais complexos que surgem com o uso avançado de tecnologias emergentes.


A Urgência em Incluir a Manipulação de Imagens por Inteligência Artificial (Deepfakes)


Um exemplo gritante dessa deficiência é a questão da manipulação de imagens por Inteligência Artificial (IA), incluindo a chocante criação de deepnudes de crianças e adolescentes.


Quando essas imagens são geradas e expostas sem o consentimento da vítima, a falta de clareza no enquadramento legal dificulta ou até mesmo inviabiliza a punição adequada aos agressores. Na prática, essa omissão aumenta a sensação de vulnerabilidade das vítimas e pode resultar em uma resposta jurídica lenta ou insuficiente diante de crimes de extrema gravidade.


A ausência de clareza no texto legal levanta uma questão séria sobre a efetividade da lei em proteger os jovens dos crimes mais sofisticados. A legislação precisa estar à frente da curva para evitar que a inovação tecnológica se torne uma ferramenta de impunidade.


O ECA Digital e o Caminho Contínuo da Proteção


O ECA Digital representa, sem dúvida, um marco histórico na legislação brasileira, reconhecendo que a proteção integral da criança e do adolescente deve ser uma prioridade absoluta em todos os ambientes, incluindo o virtual. As exigências de verificação de idade, o reforço da supervisão parental e a maior responsabilização das plataformas são avanços cruciais para criar um ciberespaço mais seguro e saudável.


Contudo, a luta por um ambiente digital verdadeiramente seguro é dinâmica. Proteger nossas crianças e adolescentes na internet é uma responsabilidade compartilhada que exige atenção constante dos pais, das empresas de tecnologia, do judiciário e de toda a sociedade.


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